No Sarau Caiçara -Vila de São Vicente em Maio de 2012
O TEATROFANTASMA
Terça-feira, Maio 29, 2012
Quarta-feira, Abril 25, 2012
Luís Antônio Gabriela e o antigo hábito de incendiar o véu enquanto o Sol nasce:
Marcelo Ariel
Domingo, Fevereiro 12, 2012
Resenha de Cláudio Daniel sobre a Pequena cartografia da poesia brasileira contemporânea:
" Pequena Cartografia da Poesia Brasileira
Contemporânea (São Vicente: Edições Caiçaras, 2011) é uma antologia
organizada por Marcelo Ariel que reúne sete autores jovens, que vêm publicando
seus poemas em blogues, sites e revistas eletrônicas
comoGermina, Pausa e Zunái. A internet é o veículo mais
atualizado e pluralista para a divulgação da poesia, e nela encontramos as
vozes criativas e inquietantes de nossa produção literária, que chegam aos
leitores sem a mediação dos cadernos culturais da imprensa diária, cujos
critérios de escolha são influenciados pelolobby das grandes
editoras e pelas tendências hegemônicas na política literária. Não encontramos
hoje veículos como o Jornal do Brasil dos anos 50, que contava
com críticos como Mário Faustino, ou o Folhetim dos anos 80,
que publicava resenhas de Paulo Leminski. Quem estiver em busca de informação
estética nova ou de reflexão crítica atualizada perderá o seu tempo folheando
as páginas da Folha de S. Paulo ou da revista VEJA, mas
encontrará diferentes vozes, estilos, temas e mitologias criativas no
ciberespaço.
Na apresentação da Pequena Cartografia, objeto artístico artesanal com o belo projeto gráfico elaborado por Márcio Barreto, o organizador da antologia diz: “A internet possui muito do artesanal e se harmoniza com práticas de edição como a desta Edições Caiçara, a internet é um esboço dos circuitos telepáticos do cérebro, trata-se da costura de fios visíveis e invisíveis. Nesta seleção que é uma pequena tentativa de realizar um recorte pessoal do que considero o mais representativo da poesia brasileira contemporânea, poemas de Marceli Andresa Becker, Katyuscia Carvalho, Lucila de Jesus, Ângela Castelo Branco, Maiara Gouveia e Daniel Faria formam este pequeno livro, pequena tessitura, que na verdade é a construção de um pensamento sobre a poética dos autores selecionados e sobre a minha própria poética, porque esta fronteira entre nós e os Outros foi a primeira a desaparecer quando alguém disse a palavra ‘Poeta’ pela primeira vez”.
O depoimento do autor, que reproduzimos aqui, merece destaque por desmistificar o suposto “distanciamento” ou “neutralidade” que alguns acreditam ser o princípio regulador de tais escolhas; nenhuma antologia é neutra, nenhuma é definitiva ou imparcial. Toda mostra é parcial, deriva de conceitos estéticos e critérios de gosto pessoal de quem a organizou. Longe de ser um pecado heurístico, peculiar às obras do gênero, a parcialidade é uma confissão de honestidade e de rigor intelectual, que não admite concessões: toda escolha de autores e textos criativos é uma operação crítica, é uma visão curatorial da produção literária de um período, e como tal deve tomar partido, sim, elencando os trabalhos de mais destacada elaboração estética, de acordo com os princípios teóricos, metodologia e grau de subjetividade do curador.
Todas as antologias são incompletas e sujeitas à discussão; por isso mesmo a existência de diferentes recortes críticos de um mesmo período histórico é enriquecedor, não apenas para a batalha de ideias, o confronto de diferentes teorias, mas também para a correção de eventuais exclusões, causadas, não raro, pelo desconhecimento. Não é possível avaliar todos os poetas de uma determinada geração sem um distanciamento temporal, para que o crítico possa consultar o conjunto da obra de cada autor, as revistas literárias publicadas na época, antologias, resenhas e outros textos que forneçam sinais luminosos sobre a produção do período. A empreitada de Marcelo Ariel é altamente arriscada exatamente por isso: ele se dispôs a fazer uma pequena cartografia do que se faz hoje pela mais nova safra de poetas brasileiros, quase todos sem fortuna crítica e inéditos em livro. Esta é uma intervenção cultural perigosa, e ao mesmo tempo excitante e necessária, que apresenta para nós um pequeno número de autores significativos, que trabalham a linguagem poética de modo consistente, rigoroso e inventivo.
Quase todos os poetas incluídos por Marcelo Ariel em sua breve antologia revelam um certo grau de hermetismo, derivado de leituras de Heberto Helder, Paul Celan, Lezama Lima e do Neobarroco: é o caso, por exemplo, de Daniel Faria (“Sangue / de espelho líquido. // Os intermináveis gestos / opacos / da cidade que se joga / sobre os meus braços”) e de Marceli Andresa Becker (“a fome que tenho se come / porque há saída nenhuma / na voz”). Pertencem a esta mesma linha criativa poetas como Andréia Carvalho, Diogo Cardoso, Adriana Zapparoli e Roberta Tostes Daniel, que mereciam estar incluídos neste volume.
O “artesanato furioso” (Marino) de nossa poesia mais recente tem revelado uma força semântica e imaginativa que contrasta com a lírica morna e insossa da linha coloquial-cotidiana, hegemônica nos cadernos culturais, que tem como ícone o livro Elefante, de Francisco Alvim, que recicla o poema-piada e o poema-crônica-de-jornal já exauridos em nosso Modernismo, quase um século atrás. Desafinando o coro dos contentes, a poesia jovem traz de volta as imagens fortes, ambíguas, monstruosas, os ritmos sensoriais, o léxico inusitado e a invenção sintática, levando a poesia para o seu terreno natural, o da encantação e do estranhamento. Quem tiver dúvidas de que a poesia é uma forma de magia, que leia com mais atenção os versos de Marceli Andresa Becker: “inviolado pelo espelho. / (mas se cantar / é cantar contra ouvido e pele, tempo de fibras, / mas se beleza é tu contra carne, / então cantar, cantar, pra te fazer / pedaços)”. Ou ainda, de novo, Daniel Faria: “só se for na beira da praia, lá dentro / a pura monotonia, os dentes da maresia, / que absolutamente não canta, saltam do verde e liso mar / e ferem seus olhos, lambem seus dentes, apodrecem sua boca”.
Em outros poetas incluídos na Pequena Cartografia, como a carioca Camila Vardarac, encontramos o poema em prosa de imagens rápidas, alucinadas, o discurso em jorro contínuo, que de imediato nos remetem à poesia beat e ao surrealismo; porém, há algo mais na escrita da autora, que sugere um diálogo com a estrutura comunicativa dos novos meios eletrônicos, como se palavras e frases fossem os cenários de um videoclip: “cotovelos sobre cacos de vidro retêm as palavras enquanto o / sangue foge, desenho as letras do seu nome dentro do coração / transformado em origami de caveira”. Imagens rápidas e fortes de um brutalismo que se aproxima ainda das artes visuais (lembremos aqui de Francis Bacon e do traço sombrio de quadrinhistas como Bill Sienkiewicz). Uma poeta que dialoga com o simbolismo, o surrealismo, a lírica portuguesa e os seus próprios gritos interiores é Katyuscia Carvalho, capaz de criar metáforas intensas e raras como estas: “Aprofundar interiores / Inconter silêncios / Apalpar um grito que / não terminou / amputado por alguma canção / que soou mais profunda” ou ainda “Um dia encontrarão / os fósseis rupestres / de uma saliva já extinta / virão tradutores / e ólogos e istas / capitalizarão: / (beijos cravados na rocha)”.
Ângela Castelo Branco, poeta e artista plástica, resistiu à tentação de simular paisagens na escrita, fazendo a sábia escolha de pintar o pensamento com todas as flores da fala. A sua poética é a da música do pensamento, mais irônica do que metafísica, mais fragmentária do que sistêmica, e nela recolhemos versos de alto impacto como estes: “Feito: costura de retalhos. Chão sujo de fiapos, retirar o que / não é composição. (...) / Qual o instrumento, qual o instrumento que acontece uma mulher?”
A construção minimalista, voltada ao retrato fragmentário de paisagens, objetos e sensações, mas evitando reverberações estilísticas derivadas de uma leitura ingênua da Language Poetry, está representada na poesia de Maiara Gouveia e Lucila de Jesus, poetas que elaboram artesanatos de alta densidade semântica. Em Lucila, há uma presença maior do humor, da ironia, do paradoxo e do non sense, como nestas linhas: “Os velhos e / as formigas / são invisíveis”; “O amor ansiado / é negro / branco / e amarelo”; “Tudo o que sei / sei sem saber. / Não aprendi, / só encontrei. / É que nasci / com os tendões / hiperextendidos”. Maiara, por sua vez, é mais elíptica, lacônica, não recusa os desafios da sintaxe e nos apresenta insólitas construções verbais, como esta: “escamas de peixe / medeias em fuga / cabelos vivos / no côncavo dos séculos // (a música) / de águas-medusa / guelras / ou ábaco líquido / (a mística do cálculo) / em ondas, em orlas / linhas tortas inúteis // onde o livro-transparência / arde / até os rins”.
A breve seleção de poemas organizada por Marcelo Ariel é sedutora, instigante e nos faz pensar sobre os augúrios das sibilas do apocalipse, para quem a poesia brasileira contemporânea está sempre “em crise” – estratégia de legitimação do cânone estabelecido pela negação insípida da poesia mais recente. A Escola do Ressentimento, que tanto mal faz à nossa crítica literária, é desmentida por obras inteligentes e corajosas como a de Marcelo Ariel, que nos brinda com uma feliz reunião de poetas e poemas."
Na apresentação da Pequena Cartografia, objeto artístico artesanal com o belo projeto gráfico elaborado por Márcio Barreto, o organizador da antologia diz: “A internet possui muito do artesanal e se harmoniza com práticas de edição como a desta Edições Caiçara, a internet é um esboço dos circuitos telepáticos do cérebro, trata-se da costura de fios visíveis e invisíveis. Nesta seleção que é uma pequena tentativa de realizar um recorte pessoal do que considero o mais representativo da poesia brasileira contemporânea, poemas de Marceli Andresa Becker, Katyuscia Carvalho, Lucila de Jesus, Ângela Castelo Branco, Maiara Gouveia e Daniel Faria formam este pequeno livro, pequena tessitura, que na verdade é a construção de um pensamento sobre a poética dos autores selecionados e sobre a minha própria poética, porque esta fronteira entre nós e os Outros foi a primeira a desaparecer quando alguém disse a palavra ‘Poeta’ pela primeira vez”.
O depoimento do autor, que reproduzimos aqui, merece destaque por desmistificar o suposto “distanciamento” ou “neutralidade” que alguns acreditam ser o princípio regulador de tais escolhas; nenhuma antologia é neutra, nenhuma é definitiva ou imparcial. Toda mostra é parcial, deriva de conceitos estéticos e critérios de gosto pessoal de quem a organizou. Longe de ser um pecado heurístico, peculiar às obras do gênero, a parcialidade é uma confissão de honestidade e de rigor intelectual, que não admite concessões: toda escolha de autores e textos criativos é uma operação crítica, é uma visão curatorial da produção literária de um período, e como tal deve tomar partido, sim, elencando os trabalhos de mais destacada elaboração estética, de acordo com os princípios teóricos, metodologia e grau de subjetividade do curador.
Todas as antologias são incompletas e sujeitas à discussão; por isso mesmo a existência de diferentes recortes críticos de um mesmo período histórico é enriquecedor, não apenas para a batalha de ideias, o confronto de diferentes teorias, mas também para a correção de eventuais exclusões, causadas, não raro, pelo desconhecimento. Não é possível avaliar todos os poetas de uma determinada geração sem um distanciamento temporal, para que o crítico possa consultar o conjunto da obra de cada autor, as revistas literárias publicadas na época, antologias, resenhas e outros textos que forneçam sinais luminosos sobre a produção do período. A empreitada de Marcelo Ariel é altamente arriscada exatamente por isso: ele se dispôs a fazer uma pequena cartografia do que se faz hoje pela mais nova safra de poetas brasileiros, quase todos sem fortuna crítica e inéditos em livro. Esta é uma intervenção cultural perigosa, e ao mesmo tempo excitante e necessária, que apresenta para nós um pequeno número de autores significativos, que trabalham a linguagem poética de modo consistente, rigoroso e inventivo.
Quase todos os poetas incluídos por Marcelo Ariel em sua breve antologia revelam um certo grau de hermetismo, derivado de leituras de Heberto Helder, Paul Celan, Lezama Lima e do Neobarroco: é o caso, por exemplo, de Daniel Faria (“Sangue / de espelho líquido. // Os intermináveis gestos / opacos / da cidade que se joga / sobre os meus braços”) e de Marceli Andresa Becker (“a fome que tenho se come / porque há saída nenhuma / na voz”). Pertencem a esta mesma linha criativa poetas como Andréia Carvalho, Diogo Cardoso, Adriana Zapparoli e Roberta Tostes Daniel, que mereciam estar incluídos neste volume.
O “artesanato furioso” (Marino) de nossa poesia mais recente tem revelado uma força semântica e imaginativa que contrasta com a lírica morna e insossa da linha coloquial-cotidiana, hegemônica nos cadernos culturais, que tem como ícone o livro Elefante, de Francisco Alvim, que recicla o poema-piada e o poema-crônica-de-jornal já exauridos em nosso Modernismo, quase um século atrás. Desafinando o coro dos contentes, a poesia jovem traz de volta as imagens fortes, ambíguas, monstruosas, os ritmos sensoriais, o léxico inusitado e a invenção sintática, levando a poesia para o seu terreno natural, o da encantação e do estranhamento. Quem tiver dúvidas de que a poesia é uma forma de magia, que leia com mais atenção os versos de Marceli Andresa Becker: “inviolado pelo espelho. / (mas se cantar / é cantar contra ouvido e pele, tempo de fibras, / mas se beleza é tu contra carne, / então cantar, cantar, pra te fazer / pedaços)”. Ou ainda, de novo, Daniel Faria: “só se for na beira da praia, lá dentro / a pura monotonia, os dentes da maresia, / que absolutamente não canta, saltam do verde e liso mar / e ferem seus olhos, lambem seus dentes, apodrecem sua boca”.
Em outros poetas incluídos na Pequena Cartografia, como a carioca Camila Vardarac, encontramos o poema em prosa de imagens rápidas, alucinadas, o discurso em jorro contínuo, que de imediato nos remetem à poesia beat e ao surrealismo; porém, há algo mais na escrita da autora, que sugere um diálogo com a estrutura comunicativa dos novos meios eletrônicos, como se palavras e frases fossem os cenários de um videoclip: “cotovelos sobre cacos de vidro retêm as palavras enquanto o / sangue foge, desenho as letras do seu nome dentro do coração / transformado em origami de caveira”. Imagens rápidas e fortes de um brutalismo que se aproxima ainda das artes visuais (lembremos aqui de Francis Bacon e do traço sombrio de quadrinhistas como Bill Sienkiewicz). Uma poeta que dialoga com o simbolismo, o surrealismo, a lírica portuguesa e os seus próprios gritos interiores é Katyuscia Carvalho, capaz de criar metáforas intensas e raras como estas: “Aprofundar interiores / Inconter silêncios / Apalpar um grito que / não terminou / amputado por alguma canção / que soou mais profunda” ou ainda “Um dia encontrarão / os fósseis rupestres / de uma saliva já extinta / virão tradutores / e ólogos e istas / capitalizarão: / (beijos cravados na rocha)”.
Ângela Castelo Branco, poeta e artista plástica, resistiu à tentação de simular paisagens na escrita, fazendo a sábia escolha de pintar o pensamento com todas as flores da fala. A sua poética é a da música do pensamento, mais irônica do que metafísica, mais fragmentária do que sistêmica, e nela recolhemos versos de alto impacto como estes: “Feito: costura de retalhos. Chão sujo de fiapos, retirar o que / não é composição. (...) / Qual o instrumento, qual o instrumento que acontece uma mulher?”
A construção minimalista, voltada ao retrato fragmentário de paisagens, objetos e sensações, mas evitando reverberações estilísticas derivadas de uma leitura ingênua da Language Poetry, está representada na poesia de Maiara Gouveia e Lucila de Jesus, poetas que elaboram artesanatos de alta densidade semântica. Em Lucila, há uma presença maior do humor, da ironia, do paradoxo e do non sense, como nestas linhas: “Os velhos e / as formigas / são invisíveis”; “O amor ansiado / é negro / branco / e amarelo”; “Tudo o que sei / sei sem saber. / Não aprendi, / só encontrei. / É que nasci / com os tendões / hiperextendidos”. Maiara, por sua vez, é mais elíptica, lacônica, não recusa os desafios da sintaxe e nos apresenta insólitas construções verbais, como esta: “escamas de peixe / medeias em fuga / cabelos vivos / no côncavo dos séculos // (a música) / de águas-medusa / guelras / ou ábaco líquido / (a mística do cálculo) / em ondas, em orlas / linhas tortas inúteis // onde o livro-transparência / arde / até os rins”.
A breve seleção de poemas organizada por Marcelo Ariel é sedutora, instigante e nos faz pensar sobre os augúrios das sibilas do apocalipse, para quem a poesia brasileira contemporânea está sempre “em crise” – estratégia de legitimação do cânone estabelecido pela negação insípida da poesia mais recente. A Escola do Ressentimento, que tanto mal faz à nossa crítica literária, é desmentida por obras inteligentes e corajosas como a de Marcelo Ariel, que nos brinda com uma feliz reunião de poetas e poemas."
Terça-feira, Janeiro 03, 2012
Ângela Castelo Branco conversa com Marcelo Ariel:
A. Quando sua mão escreve, você está a aproximar-se de algo?
M. Sim, de um calor nos pés. Às vezes quando escrevo poemas ou quando leio em voz alta alguns dos 'salmos de david', tenho a sensação de que meus pés estão descalços, mesmo que eu esteja calçado, de que eles estão plantados nas águas de um oceano. Um oceano de águas quentes, talvez com o Sol no fundo. Certamente é isso, há um Sol no fundo do mar. existe a armadilha de projetar o sagrado nas palavras, e durante muito tempo, como um morcego preso pelo rabo em uma ratoeira, me sentia preso na tentativa de dar um sentido metafísico para a linguagem cotidiana, atualmente tenho a convicção de que 'A palavra' escrita ou falada é o 'reino do demônio' e que escrevendo podemos passar por elas como se atravessássemos uma ponte até chegar a um silêncio edênico, que começa nos ossos dos pés, até explodir na cabeça como uma auréola, por onde saí e sobe aos céus. Quando este silêncio quente chega no coração, todas as palavras se dissolvem e nesse vazio-transparência podemos finalmente nos aproximarmos do que não pode ser dito, daquilo que nos Evangelhos é chamado de O Verbo, o que torna possível a existência do 'paraíso' no mundo e não o oposto. Não podemos nos aproximar desse silêncio solar se estamos em algum lugar fora do mundo, muitos amigos meus poetas, escrevem sua procura a partir de algum lugar fora do mundo, e isto torna difícil a sensação viva da existência do Éden, viva como o toque da mão do feto na placenta. Estudo muito 'A Bíblia ' e dia-após-dia sei cada vez menos e sinto cada vez mais, por exemplo, senti anteontem que a resposta a Jó, pode ser resumida como a lembrança vivíssima de que um dia fomos apenas uma simples célula, esta célula teve acesa dentro dela a sensação viva do éden e sentiu a nossa presença, do mesmo modo, podemos sentir o silêncio e o rastro harmônico do éden, como um lugar depois de todas as palavras. Há um poema de Hans Eszemberger que discute essa questão de um modo mais pragmático, diz o poema que quando alguém está feliz jamais pensa na palavra felicidade, de igual modo, estamos no Éden, se nos aproximamos do éden, houve um prisioneiro que atravessou um campo de concentração ao meio dia e antes de levar um tiro na cabeça, sentiu o Éden, como algo um milhão de vezes mais real do que o regime nazista, do que o próprio campo de concentração. Existe também um campo de concentração das palavras e dele nos afastamos, sem a necessidade da morte como extensão do Ser, para a filosofia concreta, nenhuma criatura finita tem acesso ao Ser, discordo com todas as minhas forças desse enunciado.
A. Do quê/quem você é íntimo?
M. Do estranhamento-amor, ele é como uma névoa prateada que não queima quando chegam os primeiros raios da manhã edênica, insisto muito no éden, porque ele não é uma ideia.
A. Há amizade entre o homem escritor e o homem civil?
M. Sim, através do Poema desaparece a separação entre uma coisa que vê e a coisa vista, sou inimigo da visão dicotômica entre vida e literatura, tenho a profunda fé na fusão entre Hamlet e Shakespeare, Hamlet escreveu todas as peças de Shakespeare. Um cão é um cão-lobo e não um lobo-cão.
A. Qual a sua espinha? Com o quê/quem conversa?
M. Com o Querubim, ora é um cão, ora é uma criança, ora é um lobo, ora é uma árvore que fala .O Ser é uma pergunta-resposta?
A. O que aprendeu escrevendo?
M. Escrevendo aprendi a ler, do mesmo modo, quando alguém ama , aprende a escutar.
A. Há impropriedade?
M. Na dúvida, sim. Este trabalho que fazemos exige uma fé para além do pensamento e da palavra. Mas existem os que vivem no reino do entre e nesse caso as impropriedades são constantes e absurdas.
A. Como você lê? Você é leitor do que escreve? Como vê aqueles que e lêem?
M. Não saber e não ver são atributos da fé. Não sei o que é e não vejo o quê me lê. Não sei quem são, nem o que são. Mas sei de um modo sobrenatural que eles estão perto de mim, estou do outro lado da calçada na rua que aparece nos sonhos deles, sejam eles computadores ou pessoas, árvores ou nuvens, pedras ou lagos.
Nota: Publicado originalmente no blog Epidermias de Ângela Castela Branco.
Quarta-feira, Dezembro 14, 2011
Revisão de 2011
no tempo do tempo de todos os tempos acontece a descoberta do tempo ontológico. a pesquisa do dialógico como matéria da criação de camadas de superposição dentro do poema. o cinema como etnopoesia. superação do estilo como surto. concha trincada por onde escapa a luz. prontos: teatrofantasma: poesiaeprosa (2010-2012). início do fim da dicotomia corpo e espírito. retorno das pesquisas com o Butô. vida celular das imagens. vida cósmica do silêncio. ilusão dos conselhos municipais desfeita. retorno da poesia metafísica. antidrummond. antijoão cabral.mais próximo de thom yourke.bjork, satie.gil scott heron.ijikata. antipoeta
marcelo e ariel
Terça-feira, Novembro 29, 2011
Sokurov e seu poema total
Em ' Fausto' Sokurov materializa a luz como uma pele do tempo que por sua vez é dividido em várias dimensões simultâneas do ser, Mefistófeles é objetivado como um 'ente da miséria global', Sokurov opera na chave da síntese, principalmente da síntese de todos os outros filmes de sua tetralogia sobre o Poder, Fausto encarna o olhar desencantado do Hiroito de ' O Sol' e a melancolia do Lênin de 'Taurus' , Mefistófeles caminha como o Goebbels de ' Moloch' e exibe na face o mesmo terror-entusiamo infantil diante da nadificação do Hitler no mesmo 'Moloch' . A luz é o personagem central deste ' Fausto' que afirma o poder mítico de condensação e apreensão de estados muito sutis da fragmentação da nossa "realidade". somente a investigtação de uma poética da luz, como a que é efetuada por Sokurov neste filme, poderia dar conta das camadas de significado, não apenas do livro-ópera silenciosa de Goethe, mas também ( e isso deve ser ressaltado) do nosso momento e do ocaso de uma Europa ( e de uma cultura eurocêntrica) que agonizam em um abismo ôntico. De longe o melhor e mais denso filme de 2011.
Marcelo Ariel
Quinta-feira, Novembro 17, 2011
Comunicado do escritor Antônio Cabrita:
O escritor português António Cabrita, autor do
romance "A Maldição de Ondina", recém-editado no Brasil pela
LETRASELVAGEM, enviou um comunicado aos brasileiros que, através de e-mails enviados
de todas partes do país, solidarizaram-se com ele em virtude de, por razões até
então inexplicadas, ter sido impedido de sair de Moçambique no último dia 9 de
novembro, razão pela qual o lançamento do romance, anunciado para o dia 16 de
novembro em São Paulo, teve de ser adiado para data ainda a ser definida, no
começo de 2012. Além do lançamento do romance, António Cabrita também viu-se
impedido de vir participar do Congresso Brasileiro de Escritores promovido pela
União Brasileira de Escritores, de 12 a 15 de novembro, em Ribeirão Preto/SP. A
seguir, o Comunicado do escritor:
ANTÓNIO CABRITA: COMUNICADO
Meus
caros amigos da União Brasileira de Escritores, queridos cibernautas que me têm
escrito, solidários com a minha situação, quero informar-vos que os problemas
que me impediram de ir ao Brasil se estão a resolver a contento, sem atritos
nem ondas alterosas, e que em fevereiro ou março poderei dar um salto ao Brasil
para relançarmos «A Maldição de Ondina» e darmos aquele papo que nos faltou.
Peço-vos que estejam serenos, como eu. E como a poesia é a única «liberdade
livre» que realmente nos faz viajar, aqui vos deixo, dedicando-vos, o poema que
escrevi esta noite.
OITO
VARIAÇÕES DE UM MELRO SUFI
1
Essa voz
que vem de dentro
É a voz
do mar.
Ela
pergunta-nos: onde está a morte?
Em que
naufrágio se perdeu?
Em que
banco de coral se dissimulou?
Dormem os
seus olhos na boca do lúcio,
Ou sob o
manto das medusas?
Onde está
a morte, tão mínima
Que temos
de a procurar no miolo das praias?
Reboam as
ondas sobre os seixos
E,
ouvidos os canários, perguntam-lhes:
Onde está
a morte?
Essa voz
que vem de dentro,
Que nos
exalta e recoloca
No
êxtase, como dentro de um vaso,
É a voz
do mar.
2
Quando
vejo alguém encantado com o abajur
Percebo
que cegou à luz,
Que um
reposteiro se interpôs
Entre ele
e o mar.
Eu felizmente
tenho os teus ombros
Que não
me deixam esquecer
Tenho a
minha boca que os declina
Em
colinas de jade.
Basta
mordê-las e a luz jorra
Criva-se
nos meus olhos,
Espasmódica,
láctea: reflui.
3
Como pode
haver uma ponte sem duas margens?
Olhou-a
dentro, descontaminando
A
fractura dos seus olhos?
Os
mistérios são verdes, como o electrão,
Como a
tua carne no duche.
O que
permanece intocado
Cabe
dentro das Suas mãos,
Mãos que
seguram as tuas.
A saída
do ar é Deus
Que te
alambaza de vinho.
Sacia-te,
antes de recomendar:
O gato
comeu o Espírito Santo,
Sorve-lhe
tu agora o coração.
4
É muito
difícil pôr a cabeça
De
lado. A cabeça
Do
cravinho
É mais
sã. Também à palavra
Às vezes
é preciso cosê-la
Ou
encapsulá-la no silêncio.
5
Só via
tinta preta
Onde
havia letras de um viço
Que
atapetava o chão de miosótis.
Nesse
verão amiúde
Raiou a
caligrafia de Deus
Nos olhos
da raposa.
Mas
estava incréu
Como pão
ázimo.
A sua
alma ia com a crina
Daquele
cavalo
Que
refulgiu como um cometa
No
incêndio do estábulo.
6
Quando o
estilhaço
Abre uma
cratera na cabeça
Do
soldado que estava ao teu lado,
Ter medo
é uma demasia Inútil.
Quando
acordas
Deslumbrado
pela mão que poisada
No teu
peito te desencordoa
O sangue,
ter medo
É uma
demasia Inútil.
Guarda as
moedas
Para as
atirares ao mar.
7
Há um
naufrago nos teus cabelos,
Arrasta-te
para cima.
O que é
plausível
É que a
cereja na sua boca
Faça de
mim um homem diferente.
Há um
naufrago na tua aorta,
Arrasta-te
para o sol.
8
Nunca o
meu coração foi tão verde
E vibra
como a prancha da piscina que folgou.
Aflui a
mim a paisagem,
Manancial,
anelo, no sonho de despertar Contigo.
E sou
quase feliz.
Só não
sei onde cresce o ruibarbo.
Havia uma
mulher que areava a lua,
Um
plátano a abarrotar de estorninhos,
O teu
medo estreme na ombreira
Da minha
solidão. Confia.
Essa voz
que vem de dentro É a voz do mar.
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